Comunicação em assessorias de investimentos também retém: uma visão de governança  

comunicação em assessoria de investimentos

Em muitos mercados, a comunicação em assessoria de investimentos ainda é tratada principalmente como ferramenta de aquisição. É compreensível, pois crescer, ampliar alcance e gerar novas oportunidades comerciais são objetivos legítimos e visíveis.

No entanto, no segmento de assessoria de investimentos, essa leitura parece incompleta. Em atividades intensivas em confiança, a comunicação não deveria ser vista apenas como apoio à prospecção. Ela também exerce papel relevante na retenção, porque ajuda a sustentar clareza, previsibilidade, vínculo e percepção de valor ao longo do tempo.

Essa leitura é compatível com a lógica do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC, que associa governança à geração de valor sustentável e ao equilíbrio entre os interesses das partes interessadas.

Retenção de clientes vai além da performance

O ponto central, a meu ver, é que retenção não decorre apenas de performance, portfólio ou conveniência operacional. Esses fatores importam, evidentemente, mas não esgotam a equação.

Nesse sentido, o cliente de uma assessoria, ou mesmo de uma consultoria de investimentos, avalia também a qualidade da relação. Ele observa se recebe contexto quando o mercado oscila, se entende a lógica das decisões, se percebe consistência no posicionamento e se identifica presença quando mais precisa de orientação.

Em outras palavras, ele não julga apenas o resultado. Ele julga a experiência relacional que acompanha esse resultado. E, consequentemente, essa experiência é profundamente moldada pela forma como a organização se comunica.

Comunicação versus governança  

Sob a ótica da governança, há um ponto que merece destaque. A comunicação das empresas que atuam no mercado de consultorias e assessorias de investimentos não pode ser tratada como uma camada dissociada da estratégia.

Da mesma forma, não deve ser vista como uma função integralmente delegável a terceiros, sem a integração efetiva dos sócios. Além disso, em muitas assessorias, os sócios são, na prática, os principais agentes de governança.

Portanto, são eles que definem posicionamento, prioridades comerciais, apetite reputacional, parâmetros de relacionamento com clientes e, em última instância, a coerência entre discurso e prática.

Por isso, ainda que a execução da comunicação seja terceirizada com uma empresa especializada em marketing financeiro, a sua orientação não pode ser. Em resumo, terceiriza-se a operação, mas não a responsabilidade.

Transparência como elemento central  

É aqui que o princípio da transparência oferece uma contribuição particularmente útil. No entanto, transparência não se limita ao cumprimento de obrigações formais ou regulatórias.

Trata-se, sobretudo, de disponibilizar informações verdadeiras, tempestivas, coerentes, claras e relevantes para as partes interessadas. Dessa forma, essa formulação se mostra especialmente pertinente para o universo das assessorias.

Afinal, em mercados voláteis, o problema raramente é apenas a ausência de informação. Muitas vezes, o problema é a ausência de informação inteligível, contextualizada e consistente.

Quando a comunicação falha, o cliente tende a perceber distância. Por outro lado, quando ela amadurece, a confiança tende a se consolidar.

O risco de comoditização no mercado financeiro  

Outro aspecto relevante é o risco de comoditização. Muitas empresas que atuam no mercado financeiro competem em um ambiente no qual produtos de investimento, plataformas e até certos discursos se tornam rapidamente semelhantes.

Nesse contexto, a diferenciação raramente virá apenas do que se oferece. Pelo contrário, ela dependerá também de como se constrói significado ao redor da entrega.

Portanto, a comunicação, nesse sentido, não é ornamento. É parte da forma pela qual a organização traduz sua proposta de valor, demonstra coerência e reforça a qualidade da relação com seus públicos.

Comunicação como instrumento de permanência 

Por isso, me parece um equívoco tratar comunicação apenas como motor de entrada. Em assessoria de investimentos, ela também é instrumento de permanência.

Embora não substitua a competência técnica, nem a disciplina comercial ou a qualidade do aconselhamento, ela amplia a percepção dessas qualidades e ajuda a protegê-las no tempo. Relações duradouras não se sustentam apenas com argumentos de venda, mas com práticas consistentes de transparência, responsabilização e consideração efetiva pelas partes interessadas.

Comunicar bem não é apenas aparecer melhor. É contribuir para que a confiança dure mais.

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Denys Roman