O caso do Banco Master, envolvendo fraude financeira e guerra de narrativas, consolidou-se como um dos episódios mais emblemáticos da história recente do sistema financeiro brasileiro. Mais do que uma crise bancária de grandes proporções, o episódio expôs como a desinformação digital e estratégias sofisticadas de marketing narrativo passaram a ser utilizadas para atacar reguladores, moldar a opinião pública e ampliar riscos sistêmicos.
Neste artigo, analisa-se como o Banco Master arquitetou uma operação coordenada de guerra informacional, revelando impactos profundos para o mercado financeiro, para o marketing financeiro e para os modelos tradicionais de supervisão bancária. O objetivo é compreender como comunicação, reputação e narrativa passaram a ocupar um papel central na dinâmica de riscos do sistema financeiro contemporâneo. A seguir, você encontrará os principais pontos abordados nesta análise:
- A nova fronteira do risco sistêmico no Brasil
- A anatomia do colapso do Banco Master
- Cronologia de uma queda anunciada
- A contraofensiva digital e o “Projeto DV”
- A economia da desinformação
- Manipulação institucional e o uso do TCU
- O impacto sistêmico do caso
- A nova fronteira da supervisão bancária
- Influenciadores e o marketing financeiro
A nova fronteira do risco sistêmico no Brasil
O caso da liquidação extrajudicial do Banco Master representa um marco para o Sistema Financeiro Nacional (SFN). Seus desdobramentos, entre 2025 e 2026, extrapolam o campo tradicional das fraudes bancárias e inauguram uma nova dimensão de risco: a convergência entre crime financeiro de alta magnitude e guerra informacional estruturada.
Não se tratou apenas da insolvência de uma instituição mal gerida, mas de uma tentativa deliberada de utilizar a desinformação em massa como instrumento estratégico para deslegitimar a autoridade regulatória, desestabilizar a confiança pública e proteger os arquitetos de uma fraude bilionária. O episódio revela um fenômeno inédito no Brasil: a instrumentalização coordenada do ecossistema digital como mecanismo de enfrentamento direto ao Estado regulador.
A tese central deste artigo é que a resposta à liquidação do Banco Master inaugura uma nova doutrina de risco corporativo. A desinformação deixa de ser um efeito colateral da crise e passa a ser utilizada como ativo estratégico, mobilizando capital financeiro e capital digital para sequestrar o debate público, corroer instituições técnicas e inverter narrativas factuais.
A anatomia do colapso do Banco Master
Para compreender a gravidade do caso, é fundamental analisar a engenharia financeira que sustentou o crescimento do Banco Master. Sob o comando de Daniel Vorcaro, a instituição adotou uma estratégia agressiva de captação de recursos, oferecendo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração de até 180% do CDI. Essa política atraiu cerca de 1,6 milhão de investidores.
Por trás da aparente prosperidade, porém, escondia-se uma fraude estrutural. Investigações conduzidas pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, identificaram a criação e manutenção de carteiras de crédito inexistentes, que somavam aproximadamente R$ 12 bilhões. Esses ativos fictícios sustentavam artificialmente os balanços da instituição.


O ponto crítico ocorreu na tentativa de vender cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos podres ou inexistentes ao Banco de Brasília (BRB), como parte da negociação para a aquisição de 58% do capital do Banco Master. Na prática, a operação buscava transferir o rombo da instituição privada para uma entidade pública.
Em setembro de 2025, o Banco Central vetou a transação, citando riscos sistêmicos e a opacidade dos ativos envolvidos. Essa decisão marcou o reconhecimento formal da insustentabilidade do modelo de negócios do banco e antecedeu a liquidação extrajudicial decretada em 18 de novembro de 2025.
Cronologia de uma queda anunciada
A sequência dos eventos evidencia a rápida deterioração institucional e financeira do grupo:
- Setembro de 2025 – Veto do Banco Central à venda do banco ao BRB, bloqueando a tentativa de absorção de R$ 12,2 bilhões em ativos fictícios.
- 18 de novembro de 2025 – Liquidação extrajudicial do Banco Master e interrupção de suas operações.
- Dezembro de 2025 – Início de uma campanha coordenada de influenciadores digitais contra o Banco Central, posteriormente identificada como “Projeto DV”.
- 13 de janeiro de 2026 – Início do pagamento aos credores pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em um desembolso recorde.
- 14 de janeiro de 2026 – Segunda fase da Operação Compliance Zero, com o sequestro de R$ 5,7 bilhões em bens.
- 21 de janeiro de 2026 – Liquidação do Will Bank, fintech do grupo Master, após inadimplência de R$ 6 bilhões com a Mastercard.
A liquidação do banco encerrou suas atividades financeiras, mas deu início a uma nova e mais sofisticada frente de conflito: a guerra informacional.
A contraofensiva digital e o “Projeto DV”
Diante do avanço das investigações criminais, o grupo controlador do Banco Master articulou uma estratégia inédita no mercado financeiro brasileiro: uma campanha estruturada de desinformação digital para atacar a autoridade regulatória e reverter a percepção pública do caso.
Batizada informalmente de “Projeto DV”, em referência direta a Daniel Vorcaro, a operação tinha como objetivo central inverter a narrativa: transformar uma instituição liquidada por fraude em vítima de uma suposta ação arbitrária do Banco Central.
Para isso, foi mobilizada uma rede de dezenas de influenciadores digitais, muitos sem qualquer relação com o mercado financeiro. Monitoramento realizado pela Febraban identificou, apenas em 27 de dezembro de 2025, mais de 4,5 mil publicações atacando a atuação do BC. Os perfis envolvidos somavam quase 40 milhões de seguidores.
A principal tática utilizada foi o astroturfing: a simulação artificial de clamor popular. As mensagens sugeriam que o Banco Central agia para proteger grandes bancos em detrimento do Master, criando uma falsa percepção de injustiça regulatória.
A economia da desinformação
Relatos amplamente divulgados na mídia indicam que contratos firmados com influenciadores podiam chegar a R$ 2 milhões por perfil. A operação teria sido intermediada por agências de comunicação, incluindo Miranda Comunicação (Agência MiThi) e Olivetto Comunicação.
Denúncias públicas feitas por figuras como o vereador Rony Gabriel (PL-RS) e a influenciadora Juliana Moreira Leite, que afirmaram ter recebido propostas milionárias para participar da campanha, foram decisivas para expor a dimensão do esquema e acionar os órgãos de investigação.
Os contratos revelam a natureza deliberada da manipulação. Além da remuneração, cláusulas proibiam expressamente a checagem de fatos, impunham multas elevadas por confidencialidade e determinavam frequência mínima de postagens, evidenciando uma tentativa clara de dominação algorítmica por repetição narrativa.
Manipulação institucional e o uso do TCU
Outra frente da campanha consistiu em explorar uma suposta dissidência entre o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Banco Central. Influenciadores foram orientados a enaltecer o TCU como um suposto “contraponto” ao BC, caracterizando um caso de lawfare digital.
Embora o TCU tenha iniciado auditorias, sua atuação foi distorcida para sugerir irregularidades inexistentes por parte do regulador monetário. Termos como “decisão arbitrária”, “falta de transparência” e “prejuízo ao aposentado” passaram a dominar o discurso, humanizando a defesa de uma instituição que, na prática, lesou diretamente esses mesmos grupos.
O impacto sistêmico do caso
O impacto financeiro da crise foi sem precedentes. O Fundo Garantidor de Créditos realizou o maior desembolso de sua história: R$ 41 bilhões para ressarcir 1,6 milhão de clientes.
Investidores institucionais também sofreram perdas severas. O Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, acumulou prejuízo de R$ 1,2 bilhão em Letras Financeiras do Master — títulos sem cobertura do FGC, revelando falhas graves de governança e due diligence.
Em janeiro de 2026, a liquidação do Will Bank ampliou ainda mais os efeitos da crise. Em contrapartida, a justiça dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Banco Master, fortalecendo a posição das autoridades brasileiras e limitando manobras patrimoniais no exterior.
A nova fronteira da supervisão bancária
O caso Banco Master é um divisor de águas. Ele demonstra que a estabilidade do sistema financeiro não depende apenas de indicadores de solvência e liquidez, mas também da capacidade institucional de resistir a ataques coordenados de desinformação.
O uso de influenciadores digitais para encobrir fraudes bilionárias e atacar reguladores representa uma nova forma de risco sistêmico. A opinião remunerada, quando utilizada para proteger crimes financeiros, deixa de ser liberdade de expressão e passa a integrar a lógica de organizações criminosas.
Esse cenário impõe a necessidade de repensar os modelos de supervisão e classificação de riscos, incorporando o monitoramento de narrativas digitais como variável essencial da governança financeira.
Influenciadores e o marketing financeiro
Este artigo não representa qualquer viés contrário ao trabalho sério e responsável de comunicadores e influenciadores financeiros. Como em qualquer profissão, há profissionais comprometidos com a ética e outros dispostos a instrumentalizar sua audiência.O caso Banco Master serve como alerta. Um episódio extremo e negativo, que expõe o grau de complexidade que o marketing financeiro e a comunicação estratégica atingiram. Que este precedente funcione como fator limitante, fortalecendo práticas responsáveis e reforçando a importância da integridade em um ambiente cada vez mais sensível à manipulação narrativa.





